domingo, 1 de novembro de 2009

OLHOS DO CORAÇÃO


O corpo de Jorge repousava em seu leito em um sono dos mais profundos e foi quando o seu espírito libertou-se parcialmente do invólucro carnal que ele recebeu uma visita inusitada: um homem alto, com barba branca, rala e olhar sereno o aguardava de braços cruzados.
Fazia pouco menos de um ano que Jorge entrara na corrente mediúnica de um terreiro de umbanda onde atuava como cambone. Apesar de amar a umbanda e os trabalhos das entidades ele, devido ao seu gênio cético, sentia-se pouco à vontade para participar de trabalhos envolvendo obsessores.
A cada trabalho deste gênero que acontecia no terreiro ele observava atentamente a tarefa dos doutrinadores e das entidades junto a estes irmãos necessitados sendo que uma dúvida raramente saia de sua cabeça: “Será que tudo isto que vejo é realmente verdade?”.
Quando esta dúvida tornava-se por demais exacerbada em alguma gira o caboclo a quem ele cambonava dizia-lhe:
— Firmeza no ponto filho! Firmeza nos trabalhos!
Daí então ele procurava afastar as dúvidas e concentrar-se nas orações, mas ao sair do terreiro, aos términos das reuniões, ele invariavelmente dizia aos seus irmãos de fé em tom jocoso: sou discípulo de São Tomé!
Caboclo Rompe-mato era a entidade a quem Jorge cambonava e que ali, dentro daquele terreiro, tinha a incubência de comandar as rodas de descarrego.
Ele observava o sentimento crescente de dúvida em seu cambone a cada reunião até que em uma gira a entidade pediu a ele que assentasse no banco disposto onde aconteciam os trabalhos especiais de descarrego e em que chegavam, quando necessário, espíritos obsessores e sofredores.
Jorge já se dirigia ao banco determinado pelo caboclo quando ainda tentou argumentar com a entidade:
— “Seu” Rompe-mato, eu estou super-bem na minha vida pessoal, familiar, nos estudos, no trabalho e não sabia que estava com problemas junto a espíritos obsessores e sofredores!
Fio, não vamos ser pejorativos com o sofrimento alheio, chamemos o espírito que aqui se manifestará a implorar perdão como: irmão.
Jorge estava, de fato, sentindo-se muito bem e não entendia o porquê da realização daquele trabalho, entretanto em tom respeitoso ele respondeu à entidade:
— Sim senhor”
— Procure não usar muito o intelecto; ao invés disto sinta o amor divino em seu coração e procure oferta-lo ao irmão que aqui se manifestará tão necessitado do seu perdão. Estamos combinados?
— Sim senhor!
Jorge respondera ao caboclo sem entender o porquê da ênfase que ele dera a necessidade de perdão por parte de seu cambone por que sendo Jorge uma pessoa que não era rancorosa então ele não haveria de ter dificuldades em conceder o perdão a qualquer espírito que lhe solicitasse isto.
Mesmo sentindo-se um discípulo de São Tomé, Jorge sentou-se no banco e em poucos minutos um espírito sofredor manifestou-se em um médium que não era o mesmo que cedia o corpo físico para a manifestação do caboclo Rompe-mato.
O sofrimento do espírito era imenso e muitas lágrimas eram vertidas enquanto ele pedia perdão a Jorge:
— Perdão! Perdoe-me Ernesto! Hoje sei que o que eu fiz foi errado, mas na época eu julgava que era amor! Perdão pelo amor de Deus!
Jorge não conseguia entender nada do que acontecia, pois desde a manifestação deste espírito, no médium de nome Carlos, um ódio inexplicável brotou do seu coração em relação ao referido sofredor.
Não suportando a curiosidade e já começando a pensar que estava enlouquecendo Jorge abriu os olhos e olhou para o espírito manifestado em Carlos, mas só que ele estranhamente não conseguia ver o médium apenas o espírito incorporado; foi quando o caboclo Rompe-mato determinou-lhe:
— Feche os olhos fio! Abra somente o teu coração e procure fazer o que combinamos!
— Sim senhor!
O espírito berrava com todo o seu sofrer:
— Olhe pra mim Ernesto! Perdoe-me, daqui eu vejo que Renilda, nossa companheira de outrora, está de volta ao seu lado! Você não precisa continuar a odiar-me! Perdoe-me!
Enquanto tudo isto acontecia o caboclo Rompe-mato estendeu a destra na direção do chacra cardíaco de Jorge irradiando energias que funcionavam como um bálsamo nas emoções de seu cambone.
Foi somente assim que Jorge conseguiu respirar melhor, abrandar as emoções, abrir novamente os olhos e balbuciar para o espírito manifestado em Carlos:
— Eu te perdôo! Vá em paz!
O espírito, assim, virou-se em direção ao caboclo e perguntou:
— E então, falta pouco para eu ser livre?
— Sim meu irmão, em breve você será liberto.
— Obrigado, obrigado, obrigado!!!
Foi o que respondeu o espírito em questão antes de desincorporar.
A gira, então, prosseguiu normalmente até o seu término.
Os médiuns despediram-se com abraços fraternais antes de retornarem para os seus lares.
Jorge chegou a sua casa e, enquanto tomava um banho, encontrava-se deveras impressionado com o que lhe ocorrera na gira, mas a fome era ainda maior que sua curiosidade e ele procurou não demorar-se para lanchar.
Após uma leve refeição um sono pesadíssimo o acometeu e ele foi preparar-se para deitar.
Somente quando o sono chegou foi que o seu espírito, então semi-liberto do corpo carnal, reparou na visita que recebia em seu quarto: era um homem alto, com barba branca, rala e de olhos amorosamente serenos que o aguardava de braços cruzados.
Jorge fitava os profundos olhos azuis deste homem quando este lhe disse:
— E então, vamos?
— Você desculpe-me, mas vamos aonde se eu nem mesmo lhe conheço?
— Seus olhos podem não me reconhecer, mas o seu coração sim. Feche os seus olhos e sinta quem eu sou!
Jorge fechou os olhos e então o homem estendeu sua destra na direção do chacra cardíaco dele enviando ondas de energia que subiam em direção ao chacra frontal, na direção do “terceiro olho”, como se estivesse a estimulá-lo.
Então, tomado por incontida emoção, foi que Jorge ajoelhou-se respeitosamente e disse ao homem:
— Meu coração o reconhece e saúda senhor caboclo Rompe-mato!
— Deixe de formalidades meu filho! Faça como o de costume em dia de gira: chame a mim de “Seu” Rompe-mato.
— Sim senhor!
— E então? Vamos?
— O senhor me desculpe “Seu” Rompe-mato, mas vamos aonde?
— Ora não é você que vive dizendo aos seus irmãos de fé que é discípulo de São Tomé?
Visivelmente encabulado Jorge respondeu:
— Sim senhor!
— E você não gostaria de ver para crer se o seu perdão efetivamente serviu para auxiliar na libertação do espírito que se manifestou a pedi-lo calorosamente na gira?
— Gostaria de ver, mas não para crer, apenas para auxiliar.
— E por que não?
— Por que na última gira eu aprendi a ver pelos olhos do coração.
— Bela resposta meu filho, demonstra sabedoria.
— Na verdade eu não sei se conseguiria perdoar aquele irmão se o senhor não tivesse me doado um pouco da sua energia.
— Mas não foi a minha energia que o fez perdoar!
— Não!
— Não. A minha energia só clareou os caminhos para que você pudesse enxergar a luz do perdão divino que existe não só dentro de ti, mas de cada ser humano.
— Entendo.
— Usando um dos meus atributos eu enviei-lhe uma energia rompedora que o auxiliou a romper tristezas, mágoas e ressentimentos que estavam a obstruir o teu acesso ao caminho do perdão.
— Puxa que lindo!!!
— E então vamos?
— Estou as suas ordens!
E Jorge, acompanhado do caboclo Rompe-mato, foi até a região umbralina interligada ao espírito que se manifestara na gira do terreiro a suplicar o perdão dele.
Havia uma espécie de complexo prisional e eles pararam em frente à cela onde se encontrava o referido espírito, mas este não conseguia vê-los. Foi então que a entidade disse a Jorge:
— Vou densificar o seu corpo astral para que o irmão encarcerado possa vê-lo. Não procure dialogar com ele, apenas abra as grades e liberte-o!
— Sim senhor!
Jorge, assim, tornou-se visível ao espírito que, fortemente emocionado, bradou:
— Ernesto! Graças a Deus! Louvado seja Deus! Vejo que de fato você me perdoou! Saiba que muitos se ofereceram para abrir este portão, mas eu tinha que recusar! Eu só poderia sair daqui e ser um homem realmente livre se o meu leal amigo de outrora julgasse que eu merecesse ser liberto por meio do seu perdão e você veio, você veio! Louvado seja Deus!
Jorge percebeu que o portão não possuía tranca alguma e então o empurrou para que a cela fosse aberta.
O caboclo pedira-lhe que não travasse nenhum dialogo com o espírito encarcerado e olhar para aquele ser maltrapilho e que exalava odores fétidos era terrível para Jorge, mas foi procurando manifestar a essência divina do amor e do perdão que havia encontrado dentro de si que Jorge abriu amorosamente os braços e, procurando vencer a náusea, disse para o ex-encarcerado:
— Venha meu irmão, abraça-me!
Saindo de dentro da cela agradecendo a Deus pelo tamanho infinito de Sua misericórdia o espírito caminhou com passos inseguros em direção a Jorge e encaixou-se perfeitamente nos seus braços que se apertaram em torno dele com uma força de sinceridade tão pungente que acabaram levando ambos a copiosas lágrimas.
Após alguns instantes eles se soltaram e o espírito foi para uma zona de refazimento energético-espiritual acompanhado por um espírito que ele chamava amorosamente de “mãe”.
O caboclo, então, levou Jorge de volta a sua residência após aplicar-lhe uma descarga energética desagregadora de fluidos perniciosos.
Após estes procedimentos Jorge resolveu perguntar a entidade:
— “Seu” Rompe-mato o senhor permitiu que eu tivesse esta experiência só por que muitas vezes eu duvidava se aqueles obsessores e sofredores realmente estavam manifestados nos médiuns que lhes cediam o corpo e a mente nas giras do terreiro?
— “Só” filho? Você diz “só”? Por que você se julga tão pouco assim meu filho?
— Hein? Desculpe-me, mas como?
— Filho, entenda que uma pirâmide não prescinde da menor de suas pedras, que uma corrente jamais será a mesma se um dos seus elos se partir e que, portanto, a força mental, a dedicação, o carinho e a prece de cada filho de fé é imprescindível para que a caridade possa ser praticada no andamento de uma gira, está entendendo?
— Sim senhor!
— Em uma gira você não é mais e nem menos importante que qualquer irmão de fé ou entidade: você é tão importante quanto! O próprio mestre Jesus foi quem disse isto só que nessas palavras: “ Vos sois deuses, se tiverdes fé fareis coisas mais fantásticas das que eu fiz”; então, quem é este caboclo para desmentir o mestre eterno e amado?
— Entendo.
— Mas a experiência desta noite não aconteceu somente por este motivo, mas também para acabar com quase dois séculos de culpa, dor e sofrimento, certo?
— Sim senhor!
— Então vá meu filho! Retorne ao seu vaso corpóreo por que já é dia e o sol que está nascendo vem a despertar-lhe para os seus compromissos enquanto espírito encarnado!
— Sim senhor!
— Salve Deus!
— Para sempre seja louvado!




domingo, 13 de setembro de 2009

Marinheiro

Mensagem de um marinheiro recebida por Pedro Rangel


Acontecia uma gira de esquerda e José Carlos cambonava uma entidade conhecida como Capitão Miguel.
Havia um ano que ele começara a participar da corrente mediúnica daquele terreiro e, apesar de conhecer um pouquinho da forma de trabalho dos marinheiros, ele não conseguia entende-la e nem aceita-la completamente.
Nesta referida gira, então, José Carlos estava tão preocupado com as dificuldades que o afligiam que não conseguia nem concentrar-se direito na divina tarefa de cambonar.
A entidade girava para cá e atendia uma pessoa, girava para lá e atendia outra enquanto José Carlos mantinha-se com o pensamento distante; Capitão Miguel sorria para seu cambone como se nada estivesse acontecendo e continuava a prestar seus atendimentos.
José Carlos afligia-se bastante com os problemas que estavam a martelar sua mente e desconcentrava-se cada vez mais permitindo que sua mente começasse a vaguear para fora do terreiro, mas foi justamente neste instante que o marinheiro disse a ele:
— Quer resolver os seus problemas?
— Sim Capitão Miguel!
— Pois então se concentre com todo o carinho e dedicação no próximo atendimento que farei para que tudo comece a ficar mais claro para ti, ok?
— Sim senhor!
— O senhor tá no céu, agora vem comigo que eu preciso trocar uns dedos de prosa com aquela sereia!
Chegando perto de Matilde e beijando-lhe respeitosamente a destra foi que a entidade cumprimentou-a:
— Boa noite minha flor!
— Boa noite Capitão Miguel!
— Gostei do seu sorriso minha sereia! Você poderia mantê-lo no rosto enquanto eu choro suas dores?
Ao obter um franco sorriso como resposta a sua indagação a entidade passou a utilizar as glândulas e o canal lacrimal do seu médium como forma de descarregar a consulente através de pesadas e insistentes lágrimas.
Capitão Miguel nada dizia a Matilde. Só ficava a segurar-lhe a destra e a olhar no fundo dos grandes, negros e doces olhos dela. José Carlos até estranhou, mas quanto mais a entidade "chorava" mais o sorriso nos lábios de Matilde enlarguecia.
Após alguns instantes, Capitão Miguel soltou-lhe a destra e disse-lhe:
— Não se preocupe por que seu esposo vai parar de beber e a harmonia voltará a reinar em seu lar.
— Meu Deus é tudo o que eu mais preciso e quero!!!
—Leve três cigarros e uma "loura" pra eu na orla marítima que a gente finaliza o trabalho. Faça isso na terça-feira à noite e a partir das 21:00 horas!
— Com certeza que farei Capitão Miguel, mas...
— Pode falar minha flor!
— Como foi que soube do meu problema sem eu nada dizer?
— O teu sorriso me disse tudo que eu precisava e poderia saber pra te ajudar.
— Meu sorriso?
— É! Ou não é verdade que você, quando percebeu minha aproximação, pensou assim: " Deus, meu pai, é hora de deixar os meus problemas para lá e ganhar um pouco da alegria deste marinheiro"?
— É verdade!!!
— Saiba que a alegria da nossa vida vem da satisfação de poder ajudar todos aqueles que nos são permitidos por Deus.
— Alegria? Mas você chorava ao tocar na minha mão!
— Enquanto o teu sorriso era um esforço divino para espantar a tristeza, as minhas lágrimas foram uma forma de descarregar a sua tristeza através da alegria.
— Alegria?
— Sim. A alegria de encontrar um filho de fé que consegue nos ver como realmente somos.
— Não entendo!
— Muitos pensam que nós marinheiros somos seus escravos, que temos a obrigação de resolver problemas que eles mesmos criam para si próprios. Aparentemente sofrem com os problemas e desejam que sejam resolvidos; no entanto, secretamente, são seres que das brumas ainda não saíram que só encontram um sentido para sua vida através das dores oriundas dos problemas que vivem a criar na forma de casos nascentes uns após outros.
— Puxa!!!
— Encontrar uma sereia como você que nos vê apenas como "lixeiros" auxiliadores do Cristo Divino só nos faz sorrir de alegria enquanto limpamos as mazelas astrais daqueles que se fazem merecedores.
— Lixeiros?
— Qual é a casa mais limpa? Aquela que mais se limpa ou aquela que menos se suja?
— A que menos se suja!
— Pois então, muitos dos filhos de fé ao nos avistarem numa casa de umbanda despejam sobre nós todas as suas imundícies, na forma de suas mazelas conscienciais como se eles mesmos não tivessem dever algum com o asseio das suas mentes, das suas emoções e dos seus espíritos. Poucos agem como você agiu na gira de hoje ao me perceber indo na sua direção dizendo de você para o Divino Criador: " meu Deus afaste estes problemas de mim e faça com que um pouco da alegria deste marinheiro possa trazer felicidades à minha vida"; ou seja, você ao me avistar não quis se utilizar e nem abusar do meu atributo de "lixeiro"para despejar suas mazelas sobre mim, você viu o melhor em mim, você só viu a minha alegria e dela procurou compartilhar.
— Puxa Capitão Miguel, você falando assim dá até vontade de chorar!
— Não chore minha sereia, pois eu já chorei por ti nesta gira!
E, como se já houvesse falado tudo o que havia para ser dito, a entidade despediu-se de Matilde:
— Boa noite minha sereia!
— Boa noite Capitão Miguel!
Após dar algumas baforadas o marinheiro olhou para José Carlos e falou:
— E então companheiro, você se sente melhor?
— Olha, eu nem lhe falei da dificuldade que venho enfrentado e, mesmo assim, sinto-me totalmente renovado, como pode ser isso?
— Isso acontece por que o seu "lixo" já está na minha rede.
— Rede?
— É! Você não vê?
— Não!!!
— Então deixa eu dilatar um pouquinho da sua vidência e audição mediúnica: segure minha "loura" com a mão esquerda, feche os olhos, tome um gole e mentalize que está de frente ao mar.
— Deus meu que gosma nojenta é esta na sua rede?
— Este é o "lixo" que recolhi de quem me foi autorizado na gira de hoje.
— Nossa que incrível!!!
— Tão incrível que aquele seu problema com sua sereia agora nem parece tão grande, não é verdade?
— Puxa Capitão Miguel você é danado, hein? Não vou nem perguntar como o senhor sabe disto!
— Nem haveria como eu não saber!!!
— Ah é? Por quê?
— Por que você não parou de reverberar este problema desde o inicio da gira.
— É verdade!
— Reverberava tanto o seu próprio problema que nem conseguia auxiliar-me corretamente junto à assistência.
— Puxa, desculpe-me! Realmente esta é uma dificuldade que eu tenho, mas tudo o que você conversou com a irmã Matilde fez-me refletir bastante sobre este meu erro e, se Deus quiser, eu conseguirei resolver esta minha deficiência.
— Entendeu porque eu lhe determinei que se concentrasse em minha conversa com a Matilde?
— Entendi!
— Nenhum ser humano é maior que outro. Um problema de um ser humano jamais será maior que o problema de outro ser humano; então, no auxilio fraterno ao próximo, um filho de fé não deve disso se esquecer para que possa auxiliar ao seu irmão da melhor forma possível!
— É verdade Capitão Miguel!!! Penso que aprendi a lição.
— Na história de vida de um único ser humano está contida toda a história da humanidade: na história de cada um haverá alegrias com vitórias alcançadas, tristezas devido a quedas morais e esperança de que novas vitórias sejam alcançadas ao conseguirem vencer a si mesmos.
— É verdade!!!
— E, se assim é, nenhum auxilio fraterno ao próximo deve ser prejudicado por conta das dificuldades pessoais daquele que auxilia.
— Amar ao próximo como a si mesmo.
— Exatamente companheiro!!! Pois somente dando deste amor é que se conseguirá receber do mesmo.
— Entendo.
— Será que entende mesmo?
— .....................????
— A sua sereia companheiro.
— Minha esposa?
— Isto.
— O que há com minha esposa?
— Você diz que a ama muito e que gostaria que ela demonstrasse o mesmo amor por você.
— É verdade!
— Mas, será que você demonstra este amor por ela?
— Claro!
— E que amor você demonstra?
— O meu amor por ela!
— O fato de você estar ingerindo muita bebida alcoólica, aos olhos dela, será que é demonstração de amor? Os palavrões que você profere em direção aos sensíveis ouvidos dela também serão demonstração de amor?
José Carlos engoliu seco e Capitão Miguel prosseguiu:
— Por que se você chamar estas atitudes de demonstração de amor, então saiba também que é todo esse "amor" que você vem ofertando a sua sereia que a tem feito ofertar do mesmo"amor" a você só que na forma de indiferença nas intimidades entre vocês.
— Puxa!!!
— Amar ao próximo como a si mesmo também é demonstrar aquele amor que a pessoa amada espera receber de você, por que é muito fácil amar sem ter que abrir mão de você mesmo. Observe como eu seguro minha "loura".
E, dizendo isto, Capitão Miguel levantou rapidamente o casco de cerveja e tomou do seu liquido da mesma forma. Olhando posteriormente para José Carlos ele disse:
— Eu adoro espuma e é por isto que viro a minha loura desta forma quando vou tomá-la. Se eu não gostasse de espuma procuraria virar o casco de outra forma.
— É verdade.
— E você, como prefere beber a cerveja?
— Sem espuma.
— Tome aqui um gole da minha "loura".
José Carlos bebericou e procurou esconder a careta por ter ingerido o tanto de espuma que ainda estava aderida à cerveja.
— A minha "loura" desceu quadrada na sua garganta, não foi companheiro?
— Desculpe, mas foi isso mesmo!
— Pois então da próxima vez que você for agir com a sua esposa de uma forma que a desagrade procure, antes, lembrar-se de como este gole da "loura" de Capitão Miguel desceu quadrado na sua garganta e mude sua postura no agir com ela para que seu comportamento não desça quadrado em direção aos mais puros sentimentos que ela nutre por você.
José Carlos sensibilizou-se profundamente e colocou um sorriso sincero no rosto quando respondeu:
— Com fé em Deus eu farei o que me pede!
— Teu sorriso não foi tão lindo quanto o da sereia Matilde, mas eu também gostei da sinceridade presente nele.
— Puxa Capitão Miguel você surpreendeu-me!
— Eu?
— É! Pois dizem que a linha dos marinheiros trabalha com pedidos materiais, mas com a irmã Matilde o senhor não trabalhou desta forma!
— Entenda que o nosso atributo é sermos lixeiros do astral e encaminhar toda negatividade recolhida para ser esgotada no seio do Mar Sagrado, sendo que muito da sujeira recolhida advém de energias referentes a questões da vida material de vocês encarnados, está entendendo?
— Sim Capitão Miguel!
— Mas com a sereia Matilde tive que proceder diferente por que, afinal, ela em toda sua benignidade só quis ver o melhor de mim. Ela não foi logo despejando seus "lixos" em cima de mim, mesmo sabendo que meu dever é recolhê-lo. De mim ela só quis a alegria que existe no coração de cada marinheiro por trabalhar na umbanda.
— Puxa Capitão Miguel, que lindo!!!
— A maioria dos nossos consulentes pelos terreiros de umbanda julgam que nós temos a obrigação de limpar todo o "lixo" deles, mas nem se importam de receber a nossa alegria; outros, em número bem menor, entregam-nos as suas imundícies, mas também divertem-se em receber da nossa alegria.
— É verdade.
— Já a sereia Matilde foi um caso raro no trabalho deste marinheiro por que de Capitão Miguel ela só quis a alegria, chegando inclusive a rogar a Deus que levasse a tristeza dela embora para que eu não me sujasse com a sua melancolia.
— Puxa Capitão Miguel, o que o senhor hoje confessa a mim é tocante!
— Por falar em tocante, o apito do navio está tocando a nos chamar, você está escutando?
— Meu Deus é incrível, eu estou escutando!!!
— Dá licença só um instantinho companheiro!
Chamando a atenção dos marinheiros que estavam presentes no terreiro, Capitão Miguel disse:
— Vambora marujada, o barco já vai partir!
E falando com todos os médiuns do terreiro, mas olhando na direção de José Carlos, Capitão Miguel despediu-se dizendo:
— Boa noite!!!
Os marinheiros então foram desincorporando e, um a um, passaram a formar uma fila para entrar no barco atracado na beira da praia. Cada um deles carregava uma rede cheia de lixo astral para ser esgotado com a energia divina do Mar Sagrado.
Quando a última entidade entrou na embarcação a visão de José Carlos foi embora.
Todos os médiuns da corrente mediúnica do terreiro deram-se as mãos a realizar preces de agradecimento a Deus por todas as bênçãos recebidas naquela reunião, mas o que nenhum médium conseguia compreender era a insistência caudalosa com que inúmeras lágrimas deslizavam dos olhos de José Carlos por toda a sua face: é que cada lágrima representava uma prece de agradecimento sincero ao Divino Criador pelo fato dele, naquela gira, ter aprendido não apenas a aceitar o trabalho dos marinheiros, mas também a amar com todas as forças de sua alma e, principalmente, humildade do seu coração.

Saravá a toda linha de trabalho dos marinheiros!!!!!


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

CICLOS

Mensagem de um irmão espiritual recebida por Pedro Rangel






Milênios de anos atrás dois irmãos encontravam-se sentados diante de uma fogueira acesa no interior de uma mata e sendo orientados por um dos mestres ancestrais do seu povo:
— Concentrem-se meus adorados pupilos, pois já é tempo de superarem este trauma em suas vidas!
— Desculpe mestre Athukan, mas eu não entendo como ficar sentado em frente ao fogo poderá nos ajudar a superar a saudade do vovô!
— Você não entende por que ainda não vivenciou Kunyã: é vivendo que se aprende!
— Perdão mestre, emendou Aluthapa, mas mesmo tendo aprendido com o senhor coisas significativas sobre a vida espiritual nos é difícil aceitar a morte de nosso avô! Sabemos que ele continua a viver, mas mesmo assim é difícil para nós!!!
— Então fechem os olhos meus aprendizes, pois eu fui incubido de vos auxiliar com algumas coisas que vocês precisam ver. Concentrem-se em suas visões e só abram os olhos quando escutarem o bater de palmas em minhas mãos.
Os dois irmãos, gêmeos idênticos de doze anos de idade, obedeceram prontamente à determinação de seu líder espiritual e somente depois de vários minutos foi que escutaram o bater de palmas e, assim, abriram os olhos.
Mestre Athukan aguardou alguns instantes e depois solicitou a Aluthapa:
— Conte-nos o que você viu meu pupilo!
— Mestre a visão foi esquisita, mas foi assim: a nossa terra estava afogando em água enquanto o meu avô, encarnado em outro corpo, escapava com os poucos de nosso povo que haviam dado atenção para os seus alertas de que isto aconteceria; na minha visão, inclusive, a nossa terra era rasgada em várias partes diferentes pelo mau uso psíquico e magístico que dávamos aos cristais.
— E qual seria a justificativa para você classificar a tua visão como “esquisita”?
— Perdão mestre, mas isto é óbvio!
— Então diga!
— O nosso povo não se utiliza de cristais!!!
— Ainda!!!
— Como?
— Aluthapa, tudo tem o seu inicio, meio e fim para que um reinicio seja possível e você será o início de um novo ciclo para o nosso povo.
— Mas, como?
— Aluthapa, você bem sabe que viemos das estrelas!
— É verdade mestre!
— Este conhecimento sobre os cristais você traz dentro de si desde quando vivíamos em nossa estrela.
— Mas como vou avivá-los em minha memória? Quem será o meu iniciador?
— O espírito que você chama de avô. Saiba que o ciclo para o qual ele preparou o nosso povo, há muito tempo, chegará ao fim e você, quando for à hora certa, iniciará a nossa gente no último ciclo que eles viverão aqui nessa terra.
— Mas, mestre eu tenho medo!
— Não tema Aluthapa, pois um fruto só despenca naturalmente de uma árvore quando está pronto para ser utilizado como sustento ao próximo; mas, conte-me o motivo de seu temor!
— É que se eu iniciarei o nosso povo no uso dos cristais e se ele se destruirá justamente pelo mau uso destes, então eu serei responsabilizado por esta destruição.
— Aluthapa, para que o fogo foi criado?
— Para nos guardar do frio.
— Mas e se alguém quiser utilizá-lo para a destruição?
— Acho que entendo aonde quer chegar mestre: tudo que o Divino Criador gerou Ele o fez para o nosso bem, mas se alguém quiser utilizar-se do fogo criado por Ele para fazer o mal à culpa não será Dele e nem daquele que primeiro conseguiu manipular este elemento, mas tão somente da pessoa que perverteu o seu uso divino.
— Muito bem meu kerrish*, creio que você percebeu que o mesmo exemplo do fogo aplica-se em tudo gerado pelo Divino Criador, incluindo os cristais, certo?
— Certamente mestre, mas em quantos anos isto acontecerá?
— Anos? Mas podem ser muitas décadas ou também muitos séculos, não é verdade?
— É verdade mestre, o nosso tempo cronológico não é parâmetro para a passagem do tempo presente em vosso plano!
— Só o que posso lhe dizer é que tudo acontecerá na hora exata, certo?
— Certo mestre!
— Mas e você Kunyã? Diga-nos o que você enxergou em sua visão!
— Mestre, a minha visão não foi menos estranha que a de Aluthapa; aliás, parece que a minha visão completa a dele por que eu vi que estava em um outro corpo, junto com o meu avô, como um daqueles poucos que deram atenção às suas advertências de que nossa terra seria submergida pelas águas do mar. Após este grande cataclismo nós andamos por tempos infindáveis até encontrarmos uma nova terra para o nosso povo.
— E qual foi o motivo do estranhamento em sua visão?
— É que com o passar do tempo a estrutura corporal do nosso povo mudou bastante, sendo nossa pele muito, mas muito avermelhada.
— Na realidade não há motivos para estranhamento Kunyã, pois quando o ciclo do nosso povo iniciado por Aluthapa chegar ao fim, o que ainda levará décadas de séculos, você iniciará com eles um novo ciclo em uma nova terra.
— Mestre é incrível!!!
— Um dia este ciclo iniciado por você também chegará ao fim para que um outro ciclo possa ser iniciado.
— Verdade?
— Certamente. Quando o ciclo iniciado por você chegar ao fim muitos pensarão que o nosso povo foi extinto, mas isto não será verdade: eles só terão retornado para o seio de nossa estrela, isto é, aqueles que não ficarem presos à prática do mal a cada novo corpo de carne que receberem, pois estes continuarão na carne até que expiem suas práticas nefastas e seus remorsos conscienciais.
— Nossa mestre!!!
— Não há do que se espantar meu kerrish. Uma gota de água quando está no estado físico de vapor juntamente de suas irmãs formando uma nuvem muitas vezes não quer descer da seguridade do firmamento para caírem na terra, você entende?
— Sim senhor.
— Muitas morrem de medo de caírem e se sujarem na terra, outras de caírem no mar e tornarem-se salobras.
Os discípulos sorriam com a estória de Athukan e este continuou a contá-la:
— Já outras gotinhas da nuvem muito abnegadamente esquecem de si e procuram descer ao solo com um sorriso de satisfação no seu rosto molhado justamente por saberem da sua importância na continuidade da existência da água no planeta e que se explica por um fenômeno conhecido como ciclo da água.
— Maravilhoso mestre!
— Na verdade Kunyã maravilhosa mesmo é a sabedoria do Divino Criador que faz o mundo evoluir independente da vontade de suas criaturas que nele habitam. Evolução é mudança meus discípulos e a vida há que estar sempre mudando para que possa evoluir!!! A gota que não quer despencar dos céus desce das nuvens a despeito deste fato e descobre novas formas de existir e estar no mundo aprendendo, por exemplo, que tornar-se salgada por cair no mar não é só pesar ao sentir também a delícia que é ter todo o seu corpo mais leve devido à salinidade do mar, não é verdade?
— Sim mestre!
— E não tenham dúvida que esta mesma gotinha d’água quando tiver voltado a ser nuvem não terá mais medo de despencar dos céus e cair no mar outra vez e por que isto aconteceu? Por que o mundo evolui independente da vontade de seus habitantes ou, no caso da gotinha, por que o fenômeno da chuva ocorre independente da vontade da água.
— Incrível mestre!
— E assim como acontece com uma gota de água isto também ocorre em toda a criação divina e você, seu irmão, seu povo e seu avô não poderiam se furtar ao processo da evolução que a sabedoria infinita do Divino Criador fez para existir em ciclos, onde o fim de um não elimina o anterior, mas o aperfeiçoa.
— É verdade mestre!
— Na natureza as criaturas irracionais respeitam e obedecem à determinação cíclica da vida ofertada pelo Divino Criador; já o ser humano, devido ao mau uso da racionalidade, muitas vezes se rebela contra os ciclos da vida e muita dor proporciona aos seus semelhantes.
— E, a esta observação, os pupilos de Athukan responderam em uníssono:
— É verdade mestre!
— Nunca se esqueçam meus queridos aprendizes de que viemos banidos das estrelas principalmente por não aceitarmos a evolução natural e cíclica da vida e, com isto, tentarmos burlar a divina Lei da reencarnação.
— Nós não esquecemos mestre Athukan!!!
— Então porque estavam a tanto lamentar a perda do avô de vocês antes de terem as vossas visões? Não pensem vocês que eu não entendo o estreito laço entre vós e o espírito que chamam de avô, pois eu bem sei que ele se perde no tempo ao longo das inúmeras reencarnações que vocês já tiveram juntos; mas se eu vos falo com esta severidade é por que bem sei quanto o inconformismo pode avolumar-se até transformar-se em rebeldia e destruição, vocês me entenderam?
— Sim mestre Athukan!
— Então fechem novamente os olhos e concentrem-se, pois neste exato momento um ciclo diário da vida de vocês precisa chegar ao fim para que um outro possa ser iniciado.
Com os olhos arregalados e assustados os irmãos perguntaram a Athukan em uma só voz:
— Mestre, o senhor está dizendo que vamos desencarnar já?
Esboçando um sorriso incontido na face, o mestre respondeu aos seus discípulos:
— Não estou falando de desencarne e sim do ciclo do sono físico de vocês que está pertíssimo do fim.
Tanto Kunyã quanto Aluthapa, sentindo-se aliviados com aquela resposta, responderam simultaneamente:
— Graças ao Divino Criador!!!
— Entendam que quando vocês despertarem se esquecerão de quase tudo que hoje foi vivenciado, mas viverão bem com as emoções que forem provocadas no corpo físico ocasionadas pela saudade do avô de vocês devido, tanto ao esclarecimento obtido quanto pelo fato de seus corpos astrais terem sido banhados com a energia equilibradora do fogo.
— Obrigado por tudo mestre!
— Não me agradeçam meus Kerrish e fechem os olhos para que possam despertar!
— Sim senhor!!!
— Fiquem na paz!!!
— Estejamos todos na paz mestre!!!






* KERRISH = o mesmo que discípulo, aprendiz, aluno, etc.

sábado, 18 de julho de 2009

NÊGA SALU

Alguns séculos atrás,na região norte do estado de Alagoas, Nêga Salustiana revirava os olhos na senzala e respirava ofegante tentando entender o que acontecia com ela; uma dor aguda apertava o canto esquerdo do seu peito enquanto ela recordava momentos de sua encarnação presente:
Vivera boa parte da vida na senzala, mas trabalhara na casa grande dos vinte aos cinqüenta anos de idade.
A única coisa que a entristecia era o fato de não ser chamada pelo nome, mas de aberração devido ao fato de ter nascido com uma deficiência que lhe deformava a face.
Entretanto, provavelmente, o mais impressionante na Nêga Salu era o fato dela sempre procurar servir com um sorriso no rosto. Por conta desta característica, inclusive, era muito ofendida: " do que você ri, negrume do inferno?", "Já que você está tão feliz eu vou dobrar os seus trabalhos"; só que nem a própria Salustiana entendia o porque daquele sorriso teimar tanto em brotar de seus lábios constantemente, mas também ela pensava: "se eu não me sinto triste, por que não posso sorrir?"
Quando estava com trinta anos a vida de Salustiana mudou: um certo dia ela foi até a horta retirar algumas folhas de boldo para fazer um chá para a filha mais nova da sua sinhá quando teve uma visão: foi um homem alto, com vestes estranhas e um olhar profundo, duro e penetrante que lhe disse:
— Sua missão deve começar agora!
— Missão?
— Sim. Colocar em prática todo o conhecimento com ervas que você aprendeu do lado de cá.
— Como assim? Suncê é o novo sinhô de Nêga Salu?
— Não Salu. Você é que é minha senhora! Durante muito tempo atrás teus erros passados fizeram-te servir-me no embaixo, mas, mesmo assim, nunca deixei de ser-lhe um servo.
— Suncê fala umas coisa muito difícil pra Nêga entender.
— Você não me entende com a mente, mas sente a verdade do que lhe digo com o seu coração, não é assim?
— Isso inté que é!!!
— Então, isto que é importante: seu coração sentir a presença do Divino Criador e manifesta-la através de seus gestos e sorrisos.
— Nêga tem evitado de sorrir!
— Mas, por que?
— Pra num ser chamada de nêga do inferno.
— Mas, qual o problema nisso?
— Isso num tem problema nenhum porque Nêga sabe que o inferno não tá fora, mas dentro do coração do homem; mas é que toda vez que Nêga é tratada de aberração ela lembra do defeito no rosto e sente tristeza.
— Pois a partir de agora toda vez que você for tratada como aberração, você dará um sorriso de agradecimento pela misericórdia de Deus, sabe por quê?
— Não sinhô!
— Por que seu reencarne pedia este disfarce para afastá-la dos seus inimigos espirituais, entenda esta deformidade como um disfarce proporcionado pela sabedoria divina, entende?
— Sim sinhô!!!
— Esta tua atual reencarnação é importante oportunidade que tens de trabalhar com afinco na caridade para que venha, no momento certo, assumir o seu grau na luz.
— Mas, o que é caridade meu sinhô?
— Caridade é procurar fazer o bem sem olhar a quem, sem interesse algum e, se possível, com um sorriso no rosto como você bem sabe dar.
— Bondade sua, meu sinhô.
— Preciso ser breve Salustiana, pois a sua sinhaninha precisa das ervas para restabelecer a saúde.
— É verdade! Deixa eu pegar meus boldo!
— Não Salustiana, não toque no boldo!!!
— Mas, como Nêga vai fazer o chá sem folhas?
— A resposta está dentro de ti Salu.
— Mas, Nêga num conhece ervas!
— Conhece sim Salu e muito e, a partir de agora, será a hora em que você disto se recordará, feche os olhos!!!
Nêga Salustiana fechou os olhos e viu em sua mente a erva comumente conhecida como chapéu-de-couro e foi quando ela respondeu a seu interlocutor:
— Eu vi, eu vi, meu sinhô!!!
— Então pegue as folhas e faça o chá!!!
— Mas a sinhá vai brigar por que ela mandou Nêga trazer boldo.
— E o que é mais importante: satisfazer o seu orgulho em nunca ter levado uma reprimenda dos seus senhores, ou ter paz no espírito em se ver que se está cumprindo uma missão?
— Você tem razão meu sinhô: é preferível eu ter paz no meu sorriso do que viver com um sorriso amarelo, por isso é que Nêga vai pegar o chapéu-de-couro!
— Nunca se esqueça Salustiana: Deus é contigo! Confie em si mesma! Confie no conhecimento armazenado em seu espírito e use as ervas em favor do próximo, pois são elas que, um dia, te levarão de volta ao seu grau.
— Sim meu sinhô, Nêga vai trabalhar!
Assim respondeu Salustiana, mas aquele ser misterioso já havia ido embora.
Salustiana não desviava da sua missão um segundo sequer: "aprendeu" a benzer, curar, fazer chás, poções e tudo o mais que fosse relacionado aos vegetais; sendo que a primeira destas curas foi com a filha de sua sinhá. Inclusive, esta, vendo o resultado fabuloso que sua filha obteve com a prescrição fitoterápica de sua escrava Salu, passou a testá-la com o trabalho de ervas nos escravos debilitados organicamente da sua fazenda e, depois do resultado positivo de tantos testes, a sinhá de Salu concluiu que ela era praticamente infalível.
Após esta constatação a sua sinhá proibiu-a de colocar os pés outra vez na senzala sendo que Salustiana só atendia àqueles que seus senhores ordenavam.
Uma certa noite, no inicio de sua tarefa fitoterápica, Salu estava colhendo algumas ervas quando um irmão de sina e cor pediu sua presença para auxiliar um velho negro que se encontrava doente na senzala, mas foi impedida de fazê-lo por um capataz que tinha a missão exclusiva de vigiá-la.
Este velho escravo morreu poucos dias depois e nenhum negro daquela fazenda jamais olhou outra vez nos olhos de Salustiana sendo que muitos até cuspiam no chão discretamente quando passavam perto dela: pensavam nela como uma traidora.
Mas Salustiana não tinha tempo para ficar triste tamanha era a quantidade de trabalho a que era submetida, pois se das seis as dezoito horas ela trabalhava normalmente na Casa Grande, a partir das vinte horas ele devia sempre estar disponivel para atender aqueles que lhe fossem encaminhados por seus senhores, sendo que quase a totalidade destes eram escravos de outras fazendas encaminhados até ali por seus senhores. Salustiana, enquanto escrava, nada ganhava economicamente para exercer esta tarefa, mas os senhores dela ganharam um bom dinheiro explorando esta habilidade dela com as ervas.
Tanto era o trabalho de Salustiana que no dia em que completou quarenta e três anos de idade sua aparência era de mais de sessenta.
Aos quarenta e cinco anos ela começou a manifestar um sério problema no coração e sua sinhá resolveu diminuir consideravelmente as suas tarefas na Casa Grande: só o que não diminuía era o seu trabalho com as ervas.
Poucos anos depois o senhor de Salustiana manifestou uma grave enfermidade na estrutura óssea do corpo físico.
Salu era convocada a intervir e muito minorou o sofrimento de seu senhor, mas não houve jeito e alguns meses depois ele veio a falecer.
A sinhá acusou Salu de incompetente, ineficiente e a devolveu, aos cinqüenta anos de idade, para a senzala.
A sinhá também aumentou consideravelmente a carga de trabalho de Salu; fato que agravou ainda mais os problemas em seu coração e, para completar, o desprezo dos escravos por ela não diminuira em nada com o tempo.
Nem é preciso muito esforço para se prever que poucas semanas após estes infortúnios encontraríamos Salustiana a revirar os olhos e respirar ofegante, com pontadas no lado esquerdo do peito, tentando entender o que acontecia com ela.
Forçando as vistas ao olhar o canto esquerdo do portão de entrada da senzala ela viu surgir na sua frente aquele mesmo ser que vira na horta da Casa Grande décadas atrás. Foi ele quem disse a ela:
— O que você teme?
— Num posso morrer agora meu sinhô, num posso!
— Por que não?
— Minha missão está incompleta, eu passei a vida curando com muito amor quem a minha sinhá e o meu sinhô queria e quando Deus me deu a chance de tentar reconquistar o amor de meus irmãos de raça aqui da senzala e trabalhar por eles eu num posso morrer!!!
— Sua missão está encerrada, você conseguiu completa-la!
— Mas, como? Meus irmãos têm ódio por mim!
— Um dia tudo será entendido, mas agora você precisa vir.
— Tudo bem, eu confio no sinhô!!! Me leva meu sinhô!!!
Imediatamente após o desencarne Salustiana era pura luz e, achando tudo aquilo bem estranho, perguntou a seu interlocutor:
— Que luz é esta meu sinhô? Quem é suncê, meu sinhô?
— Esta é a luz de Deus que trouxeste até a ti própria, pela prática do bem; quanto a mim, podes chamar-me de guardião da porteira.
— Guardião da porteira? O senhor abre portas?
— Não, sou só um atravessador!!! Atravesso pelas portas de Deus aqueles que, pela prática da caridade, conseguem abrir essas portas.
— Então o senhor veio me atravessar?
— Já lhe atravessei da morte para a vida.
— Mas eu morri, tô morta!!!
— Não Salustiana, você está viva na verdadeira vida que é a espiritual, agora feche os olhos e concentre-se para que possas retornar ao seu lugar original.
Assim foi feito e assim Nêga Salu, graças à prática incessante e abnegada da caridade conseguiu retomar o seu posto na luz na hierarquia divina.
Atualmente ela trabalha como uma preta-velha juremeira que trabalha no campo santo: através das ervas ela cura, sara e regenera àqueles espíritos que se fazem merecedores a fim de que possam ser levados para seus lugares de merecimento.
Nêga Salu, por onde passa, não cansa de repetir uma frase que tanto vivenciou em sua última encarnação: fora da caridade, não há salvação!!!

domingo, 7 de junho de 2009

Conversando com Exu

Certa vez eu caminhava à noite por um deserto muito, mas muito frio. A temperatura estava tão baixa que eu tinha a convicção de que se ali não estivesse fora do corpo físico, já haveria "congelado" por hipotermia.
Eu caminhava sem saber nem mesmo o porquê, só sentia algo dentro de mim determinando que procedesse desta forma.
Andei até que escutei uma sonora gargalhada que vinha de uma pequena inclinação localizada a minha direita. Subi inclinação acima e dei de frente com um ser que se encontrava ajoelhado ao solo e que me fitava seriamente como se estivesse a me esperar.
Caminhei passo-a-passo na sua direção e foi quando dele escutei:
— Salve cabra, senta no chão!
— Salve senhor Exu!
Foi o que intuitiva e respeitosamente respondi enquanto me sentava no solo arenoso.
— Como vai cabra?
— Vou bem senhor Exu, na força de Deus Pai.
— Fico satisfeito em escutar isto de ti, pois o assunto desta madrugada será sério por demais.
Preparei o coração e os ouvidos por que senti que vinha "chumbo grosso".
— A conversa desta noite será breve, mas nem por isso deixará de ser séria.
— Sim senhor.
— Um médium entra pela primeira vez para a corrente mediúnica de um terreiro de umbanda e começa a exercer o divino ato de cambonar as entidades; acontece que depois de algum tempo exercendo tal tarefa este médium começou a considerar esta sublime tarefa repetitiva, está acompanhando?
— Sim senhor!
— Pois bem, devido a este sentimento de repetitividade o referido médium passou a desejar ardentemente que as entidades começassem a se utilizar do seu corpo físico e da sua mente através da incorporação. Mas como filho de umbanda não tem querer isto só começou a ocorrer dois anos após sua entrada na corrente mediúnica. Ainda acompanhando?
— Perfeitamente, senhor Exu!
— Pois saiba que algum tempo depois que as entidades começaram a incorporar no médium este passou a achar o fato delas incorporarem e ficarem quase sempre parada no mesmo lugar, e fazendo as mesmas coisas, bastante repetitivo e começou a ansiar que as entidades que o assistem nas incorporações auxiliassem nas rodas de descarrego, está entendendo?
— Estou sim, senhor Exu!
— Algum tempo depois que as entidades passaram a trabalhar nas rodas de descarrego este referido médium também começou a achar este trabalho repetitivo e passou a desejar que as entidades que o assistem prestassem consultas a assistência, ainda me acompanhando cabra?
— Sim senhor!
— Algum tempo após este período as entidades que assistem a este referido médium em suas incorporações começaram a prestar consultas para a assistência e, após algum tempo, ele passou a considerar esta também sublime tarefa bastante repetitiva e começou a ansiar por algo que ele nem sabia o que era, ainda está atento ao que digo?
— Sim senhor Exu!
— Então me permita continuar a história: o tempo passou e como já estava prescrito no desenvolvimento mediúnico do médium, ele começou a ser utilizado por seus mentores para trabalhar a favor da caridade em espírito durante as noites de sono e, após algum tempo, começou a considerar esta tarefa repetitiva, está me entendendo?
— Sim senhor!
Como o Exu calou-se e começou a fitar-me com olhos inquisidores eu perguntei a ele:
— Acabou a história senhor Exu?
— Sim!
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Já estava esperando!
—Eu gostaria de saber, se possível, o seguinte: porquê essa sensação de repetitividade recorrente na vida mediúnica do médium em questão?
— Por que ele se ilude querendo e ansiando sempre por um algo mais por considerar-se um iniciado.
— Meu Deus!!! Então quer dizer que este médium está sendo assessorado por espíritos mistificadores?
— Não cabra! Na verdade até mesmo um iniciado ele é, ele só precisa retomar o foco!
— Como?
— O foco cabra! Qual é o foco de qualquer tarefa, atividade ou trabalho umbandista?
— A caridade!
— Que bom você responder-me com uma afirmação ao invés de uma interrogação, pois isto significa que você não tem dúvida alguma no que diz respeito a isto.
— Mas se o senhor diz que o médium em questão é um iniciado por que também diz que ele encontra-se iludido?
— Por que toda e qualquer tarefa umbandista tem, aos olhos do Divino Criador, o mesmo valor. Não existe tarefa mais valorosa que outra: um cambone cuja meta é a caridade desinteressada está trabalhando por sua evolução o mesmo tanto que o chefe de um terreiro de umbanda se este labuta da mesma forma em favor da caridade. Você entende?
— Sim senhor!
— O valor do médium cuja entidade comanda uma roda de descarrego é o mesmo do que qualquer iniciado se ambos possuem no coração o desejo de ao próximo fazer o bem. Já estive em muitas tendas, casas, centros e terreiros de umbanda onde o valor equivocado de uma iniciação fez com que a vaidade e o inconformismo encontrassem acesso no mental e coração de muitos médiuns!
— Fazendo com que caíssem mediunicamente senhor Exu?
— Nem todos, mas fazendo com que trabalhassem com menos da metade da metade dos seus potenciais, certamente!
— Como assim?
— Imagine três operários que estão construindo uma edificação em comum. O primeiro não sabe o que será construído; o segundo sabe somente que será uma escola e o terceiro, além de ter consigo a mesma informação do segundo operário, sabe que não só os seus filhos, mas também os filhos dos seus dois colegas estudarão gratuitamente naquela futura instituição de ensino, entendeu cabra?
— Sim senhor Exu!
— Então eu lhe pergunto: os três ganharão o mesmo salário, mas qual deles provavelmente trabalhará com maior motivação?
— É muito mais provável que seja o terceiro operário!
— Pois bem cabra, todo médium umbandista está trabalhando a favor de uma edificação denominada EVOLUÇÃO ESPIRITUAL cuja matéria-prima básica é de conhecimento de todo médium e denominada CARIDADE, você entende?
— Sim senhor Exu!
— Então responda-me por que tantos médiuns umbandistas mesmo conhecendo as verdadeiras motivações que se deve ter para freqüentar a corrente mediúnica de um terreiro quais sejam, caridade e evolução espiritual, ficam tão ansiosos por uma iniciação a ponto de visualizarem o trabalho de fazer o bem ao próximo como repetitivo se isto não ocorre ou demora para acontecer?
Pensei, pensei e pensei, mas só consegui responder:
— Não sei senhor Exu!
— Mas eu já lhe disse hoje mesmo!
— A ilusão?
— Exatamente! Muitos médiuns vêem a iniciação de uma forma que não é a real.
— Como?
— Cabra, o que é um iniciado?
— Seria alguém que sabe manipular um mistério?
— A resposta, em parte, é essa. Agora diga-me: o que é uma iniciação?
— O aprendizado de como manipular um mistério?
— A resposta, também em parte, é essa. Agora responda-me uma última questão: qual o objetivo providencial de uma iniciação e dever moral e ético de todo iniciado?
Talvez lendo os meus pensamentos e vendo que eu estava "viajando" foi que o Exu disse a mim:
— Dê-me a resposta cabra, só não se esqueça de que Deus é simplicidade, assim como as coisas dele.
Foi aí que imediatamente respondi ao senhor Exu:
— A caridade!
— Gostei de ver outra vez cabra, pois novamente você respondeu-me com uma afirmação ao invés de interrogação.
— Entendo.
— É uma ilusão um médium deixar o desejo de fazer o bem esmorecer por querer alcançar algo que os seus próprios merecimentos não lhe facultam. Por que um cambone vai ter pressa de incorporar e esmorecer no desejo de fazer o bem quando ou enquanto isto não acontece se o ato de cambonar também é caridade?
— O senhor tem razão!
— Querer é uma coisa poder é outra ou, como disse Jesus, muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos.
— Como assim?
— O suposto médium da história que estava a lhe contar, lembra-se dele?
— Sim senhor!
— Pois eu lhe digo que ele está entediado em fazer o bem por julgar que está sendo demorada a sua iniciação. Acontece que ele mesmo está atrapalhando a sua própria iniciação por ter perdido o foco de que o objetivo principal dela é a caridade, quando este problema for resolvido a iniciação dele poderá ser iniciada.
— Entendo.
— Este Exu vê com muito desgosto quando um médium se enche de empáfia e vaidade para se dizer um iniciado disto ou daquilo. Manipular um mistério qualquer iniciado aprende, agora manipula-lo com maestria é para poucos: muitos os chamados e poucos os escolhidos, entendeu?
— Sim senhor Exu!
— O principal objetivo na manipulação de qualquer mistério para qualquer iniciado deve ser a caridade. Na verdade entenda que há muitos seres leigos em magia, mas que manipulam certos mistérios melhor do que muitos iniciados.
— Sério?
— Certamente. Imagine um brilhante professor universitário e responda se este é ou não um habilíssimo manipulador de parte do mistério do saber?
— Meu Deus é verdade!!!
— Imagine uma excelente e devotada mãe a cuidar zelosamente de sua prole e responda se esta é ou não uma habilíssima manipuladora de parte do mistério do amor?
— É verdade senhor Exu e a lógica também é impressionante!!!
— Esta mensagem eu posso dizer que é para todos, mas como estou ditando-a a você, peço que coloque-a em prática a cada dia de sua vida: mediunidade não torna ninguém melhor e iniciação não faz ninguém evoluir se não houver a prática da caridade pois, como já disse um grande iniciado no amor e saber religioso: " fora da caridade não há salvação!"
— Estou entendendo!
— E um médium, um iniciado deve labutar para tornar-se não melhor que os outros, mas melhor que ele mesmo, pois quanto mais bem ao próximo ele equilibradamente fizer, mais ele conseguirá evoluir moral e espiritualmente em direção a Deus, entendeu?
— Sim senhor Exu!
— Então salve cabra!
— Salve senhor Exu!

domingo, 17 de maio de 2009

A CONDIÇÃO ANÍMICA

Fazia frio naquela noite de inverno em que eu fora convidado, em espírito, a aprender mais um pouquinho sobre a misericórdia divina.
Fora uma belíssima mulher de meia idade quem fizera-me o convite fraterno: tinha os traços orientais; cabelos longos, negros e sedosos; a pele era de um moreno bem claro e as suas vestes assemelhavam-se com as de alguma antiga sacerdotisa do império Maia; a região do coração dela, por sua vez, irradiava uma brilhante e tranqüilizante luz violeta e eu, sem conter a admiração, disse a ela:
— Deus do céu, eu estava morrendo de frio!!!Mas, é impressão minha, ou desde que aproximei-me de você minha temperatura está voltando ao normal???
— Não é impressão sua.
— A senhora poderia dizer-me o porquê?
— Até que sim, mas só se você puder explicar por que não fez a ativação para a falange dos preto-velhos que nós lhe intuímos à tarde.
— Nós? Mas eu só estou vendo você, a senhora é uma preta-velha?
— Você não me respondeu!
— Eu não fiz a ativação por que parecia ser apenas uma idéia "da minha cabeça" e não uma determinação espiritual.
— Amigo, da próxima vez que surgir em sua mente a idéia de acender uma vela para a falange dos preto-velhos, faça!
— Mas, e se for só coisa da minha cabeça?
— Amigo, toda prece sincera feita com sentimento e fé sempre traz as bênçãos do Grande Espírito* na vida de quem a fez.
— Como?
— Se, por acaso, fosse uma coisa da sua cabeça, não seria o seu inconsciente pedindo uma prece?
— Sim, mas seria uma coisa vinda de mim mesmo!
— Exatamente, seria um recado do seu espírito expressado por seu inconsciente, ou você acha que seu espírito não pode dizer a você àquilo que você tanto precisa para ter cada vez mais condição de aproximar-se do amor do Grande Espírito Deus?
— Incrível a lógica!!! Nunca havia parado para pensar desta forma!!!
Ela sorriu para mim e eu resolvi dizer-lhe:
— É por isso que eu estava sentindo frio?
— O frio que você estava sentindo era proveniente da energia de dois espíritos desencarnados que estavam a lhe acompanhar desde hoje à tarde.
— Hoje à tarde? Mas eu procurei ficar a tarde inteira com pensamentos elevados!
— E eu sei que isto é verdade!
— Mas então....
— ...onde você esteve hoje a tarde?
— Fui ao banco fazer um depósito.
— Pois então, você trouxe estes dois espíritos do banco para sua casa.
— Mas como se eu não estava sintonizado com eles?
— Amigo você ainda não entendeu?
— Como?
— Todo médium é uma lâmpada!
— Como?
— Companheiro, se você fosse uma destas lâmpadas que existem no plano físico, qual tipo de compainha você gostaria de trazer para perto de si?
— Bem, penso que gostaria de trazer a mim àquelas pessoas que gostam de claridade, pois não atrairia nada que viesse a incomodar-me para perto de mim.
— Não?
— Penso que não!
— Nem mesmo aqueles insetos que são atraídos pela claridade das lâmpadas?
— É verdade!
— Você, enquanto lâmpada, teria como escapar deles?
— Não, a senhora tem razão!!!
— Entenda meu amigo, que a lei das afinidades é verdadeira, divina e justa! Pensamentos do bem atraem espíritos envolvidos com o bem e pensamentos maus atraem espíritos afins a eles.
— Mas eu procurei...
— ...eu sei amigo, sei que procurou ficar com pensamentos elevados.
— Então!
— Mas, em algum momento do dia de hoje, você sentiu tontura, dor de cabeça, indisposição digestiva ou algum mal deste gênero?
— Não!
— Sabe por quê?
— Por que procurei cultivar pensamentos positivos?
— Exatamente! E justamente por você ter procurado cultivar pensamentos desta qualidade no dia de hoje foi que nós direcionamos estes dois espíritos para que notassem a luz da sua lâmpada.
— Minha lâmpada?
— Isto, sua mediunidade! Você levou, sem saber, estes dois espíritos para sua casa por que na rua nós, através de você, não poderíamos fazer nada para ajudá-los.
— Estou entendendo!
— Ao chegar em casa nós lhe intuímos que você fizesse uma ativação para a falange dos preto-velhos, clamando, primeiramente ao Grande Espírito, que eles abrissem um portal de luz e que encaminhassem para dentro dele todo e qualquer espírito necessitado de auxilio nas moléstias de suas almas, não é verdade?
—Sim é verdade!!!
— Mas você, por não perceber a presença destes dois espíritos lhe acompanhando e, consequentemente, por estar sentindo-se bem, julgou mais prático pensar que era "coisa da sua cabeça" e nada fez do que lhe foi determinado.
— Sim é verdade!
— Assim, ao dormir e ter seu espírito desprendido parcialmente do seu corpo físico você trouxe para cá, mesmo sem saber, os dois espíritos que estavam lhe fazendo compainha.
— Meu Deus, então quer dizer que esta é a explicação para o afamado "frio espiritual"?
— Você, mais uma vez, tentando catalogar os fenômenos da criação divina de uma maneira tão rígida, não é meu amigo?
Confesso que corei de vergonha.
— Não precisa ficar encabulado meu amigo, peça apenas e sempre que o Grande Espírito ajude-o a desenvolver a virtude da sabedoria.
— Sim senhora!
— Você perguntou-me o porquê do frio desta noite e foi isto o que lhe expliquei!
— Sim senhora, mas...
— ...prossiga!
— Por que meu frio passou? A senhora abriu um portal e encaminhou os dois espíritos para o local de merecimento deles?
— Exatamente, mas com esta minha atitude você deixou de trazer mais luz ao seu espírito!
— Como?
— O que traz luz para o espírito?
— A prática da caridade.
— E se você, á tarde, houvesse feito a ativação não teria feito a caridade?
— Meu Deus, é verdade, mas eu não sabia!!!
— Nós sabemos que você não sabia. E o Grande Espírito permitiu que nós, a partir desta sua "ignorância", ofertássemos a você, neste instante, a oportunidade de fazer uma caridade.
— Meu Deus obrigado!!! Desta vez tenho fé que não falharei! O que a senhora deseja que eu faça? Uma ativação?
— Não, apenas dê um recado!
— Recado?
— Sim, diga a todos os seus irmãos de fé que busquem cada vez mais ficarem próximos do Grande Espírito por meio da oração.
— Sim senhora!
— Pois somente assim eles conseguirão alimentar e desenvolver a fé.
— Sim senhora!
— Pois somente com a fé fortalecida vocês conseguirão desenvolver a sabedoria, eliminar a dúvida e praticar mais a Lei de Caridade.
— A senhora me desculpe, mas que dúvida?
— A seguinte dúvida: acabo de ter uma intuição; será que é "da minha cabeça" ou trata-se de alguma determinação espiritual?
— Foi o que aconteceu comigo hoje!
— Na verdade, amigo, é o que acontece com a grande maioria dos médiuns que consciente ou inconscientemente vivem a combater a condição anímica como se esta fosse pedra de tropeço para a vida de um médium.
— Mas esta tal de mediunidade intuitiva é realmente muito complicada de desenvolver, de entender!!!
— Penso que oração e fé são remédios suficientes para curarem qualquer insegurança; de mais a mais, muitas vezes o animismo surge somente para que a consciência do espírito do médium possa manifestar-se e instruí-lo para o bem dele próprio.
— Não entendi muito bem.
— No seu caso de hoje, por exemplo, suponhamos que fosse animismo e que você fizesse a referida ativação para a falange dos preto-velhos pedindo que fosse aberto um portal e que por este fosse encaminhado todo e qualquer espírito necessitado de auxilio nas moléstias de suas almas, está acompanhando o raciocínio?
— Sim senhora!
— Então eu pergunto: o que seu espírito estaria querendo instruir para você?
— A necessidade de oração?
— Exatamente! Não se esqueça que a prece é o alimento do espírito!
— Mas usando o caso ocorrido comigo hoje como exemplo de animismo, seria notório o fato de que não haveria espíritos para serem encaminhados por este portal!
— Quem lhe garante?
— ...............
— Uma prece dirigida com verdade e sentimento para o Grande espírito nunca fica sem resposta. Ainda utilizando o exemplo do caso ocorrido hoje contigo percebe-se que notório é o fato de que estes dois espíritos em questão não seriam encaminhados portal adentro, mas será que são somente estes dois os espíritos desencarnados necessitados e merecedores de auxilio? Será que o Grande Espírito não encaminharia outros espíritos pelo portal aberto por você? Como afirmar que se conhece os desígnios de Deus?
— É verdade!
— Então, meu amigo, por caridade, dê este recado aos seus irmãos de jornada: animismo só faz mal, a priori, se estiverem associados a ele: egoísmo, orgulho, vaidade e fanatismo. Peça a todos que alimentem seus espíritos com a oração, pois só ela faz nascer o bom senso na mediunidade, sem matar a importância do animismo, você compreende?
— Sim senhora!
— Muito se fala de mediunidade e animismo como se uma fosse o trigo e o outro o joio, mas não é assim: ambos são o trigo de onde se pode utilizar o material para produzir o fermento da fé e o pão da sabedoria; joio são, repito: egoísmo, orgulho, vaidade e fanatismo, você entende?
— Sim senhora!
— Então, por caridade, vá e transmita o nosso recado e que o Grande Espírito abençoe a todos vocês, os nossos irmãos umbandistas!!!!!


* Grande Espírito : Deus



Mensagem de um irmão espiritual ditada a Pedro Rangel em julho de 2008

sexta-feira, 10 de abril de 2009

UM JUREMEIRO





Um senhor muito simpático e com vasta cabeleira branca aguardava o meu desprendimento do corpo físico no momento do sono para que eu viesse a aprender algumas preciosas lições àquela noite.
Não consigo recordar-me de haver conhecido uma pessoa que irradiasse uma energia de simpatia tão grande quanto aquele senhor. Fiquei olhando impressionado em sua direção até quando ele me disse:
— Preparado esta noite?
— O senhor me desculpe, mas preparado para que exatamente?
— Para mais um aprendizado.
— Ah, sim senhor!!!
Foi o que sinceramente respondi, mesmo sem ter ainda a mínima noção de que aprendizado seria aquele.
— Você não está com medo, está?
— Não senhor, pois à medida que o tempo vai passando e eu tenho a divina oportunidade de aprender com os senhores, eu vou adquirindo confiança ainda maior em Deus e nos vossos trabalhos.
— Então, vamos juremar?
— Juremar?
— Sim, entender um pouco sobre o nosso trabalho.
— O senhor está me dizendo que é um juremeiro, é isso?
— Não seria melhor você aprender com os próprios olhos?
— Se o senhor acha que é melhor assim seguirei vossa determinação à risca.
— Então vamos!!!
Aceitei o convite prontamente e assustei-me quando percebi que, ao invés de estarmos nos dirigindo para alguma região de mata, adentrávamos um hospital situado no plano físico; penso que este meu estranhamento deve ter se manifestado em minha face, pois foi quando eu o ouvi dizer:
— Não estranhe companheiro, pois seu aprendizado se dará aqui mesmo dentro deste hospital.
Estávamos em um grande hospital onde, obviamente, pessoas com os mais variados problemas encontravam-se internadas e eu, apesar de não entender qual tipo de aprendizado eu poderia obter com um juremereiro naquele ambiente, respondi:
— Sim senhor, estou as suas ordens!
— Então me diga: se pudesse escolher, quais pacientes você desejaria curar?
Pensei um pouquinho e respondi:
— Pacientes com problemas no aparelho circulatório!
— Pois bem. Então passemos para a ala onde estão os internos cardiopatas!
Havia quarenta quartos neste setor e nós entramos em um deles quando o juremeiro disse a mim:
— Observe!
O juremeiro, primeiramente, aproximou-se do enfermo e passou um olhar perscrutador ao longo de todo o corpo deste, depois ele abriu uma espécie de pequena sacola que estava pendurada em seu ombro e, de dentro dela, retirou com a mão direita uma espécie de gel transparente que ele usou em beneficio do chacra cardíaco do paciente; então, instantes depois, o inacreditável ocorreu: a acompanhante do enfermo foi chamar a enfermeira as pressas por que o seu esposo estava melhorando.
Eu olhei espantado para o juremeiro que, sem pestanejar, levou-me a outro quarto.
Desta vez o juremeiro escolhera uma paciente do sexo feminino só que utilizou um pouco do gel na região da fronte ao invés do coração e o médico que neste mesmo instante, no plano físico, tirava a pulsação da enferma impressionou-se pelo fato de ela ter saído do coma após sete anos.
Saímos do quarto e acho que meu olhar suplicante de esclarecimento deve ter contribuído para o juremeiro dizer-me:
— Pode falar filho!
— Meu Deus, o que o senhor fez com estes dois pacientes?
— Eu não fiz nada!!! Esta paciente que acabamos de assistir só saiu do coma por que já estava na hora dela despertar e o mesmo eu posso dizer do paciente do outro quarto que visitamos anteriormente, ou você se esquece do fato de que não cai uma única folha de uma árvore se não for da vontade de Tupã?
— O senhor tem razão, mas e este gel? O que há neste gel?
— Deus!
— Perdão?
— Quem criou o prana dos vegetais?
— Deus!
— Então penso que você me entendeu.
— Entendi sim senhor, mas que erva tão poderosa é essa que acorda até uma pessoa do coma?
— Já lhe disse que nenhum poder é maior que a vontade de Tupã e que foi Ele quem despertou a paciente do coma.
— Sim senhor, perdão!
— Não há o que perdoar, há o que se entender!!!
— Sim senhor!
— Quanto ao gel desta bolsa, o prana, ele é formado de cada energia que o paciente estiver necessitado de receber.
— Como? O senhor está me dizendo que existem pranas das mais diferentes ervas ai dentro desta pequena sacola que o senhor carrega consigo?
— Não só de plantas, mas também frutas, frutos e legumes.
— Mas então, como eu só vejo o senhor retirar sempre o mesmo gel? Como esta sacola pode conter tantos pranas diferentes se ela me parece tão pequena?
— Filho, antes de ir lhe buscar esta noite eu colhi o prana que fosse suficiente para auxiliar na cura de trinta e cinco pacientes deste hospital e que meus superiores determinaram.
— Trinta e cinco! Mas...
— ...Antes de lhe buscar eu estive neste hospital junto com outros companheiros e auxiliamos trinta e dois enfermos.
— Se o senhor tem a ordem para curar trinta e cinco enfermos, curou trinta e dois deles antes de ir me buscar e mais dois desde que aqui estou com o senhor, isto quer dizer que ainda resta mais um enfermo a ser curado!
— Exatamente!
— Será que antes de auxiliar na cura deste irmão que está faltando o senhor poderia esclarecer-me uma dúvida?
— Bem, não serei eu quem auxiliará a este irmão, mas eu posso lhe esclarecer a dúvida, pergunte!
— É que o primeiro paciente com problemas circulatórios que o senhor auxiliou eu percebi e penso que entendi porque o senhor aplicou o prana na região do chacra cardíaco, mas eu não compreendi por que na paciente que encontrava-se comatosa o senhor passou o gel no chacra frontal, ao invés de aplica-lo no cardíaco.
— Veja bem. Não é por que uma pessoa está com problemas cardíacos que o chacra cardíaco será o único a encontrar-se debilitado.
— Ah é?
— Perfeitamente. Veja o caso da paciente que se encontrava comatosa, por exemplo: descobriu que fora traída pelo marido, mas não estava querendo analisar a situação com clareza para decidir qual a melhor atitude a ser tomada. Ao contrário, colocou toda culpa dentro de si e passou a desejar secretamente a morte. Veio para este hospital realizar uma cirurgia cardíaca onde o corpo dela não reagiu bem e a forma pensamento do desejo de morte auxiliou-a a tornar-se comatosa. Após sete anos sem assumir o corpo físico e tendo a prendido muitas lições faltava o último passo para que ela saísse do coma que é uma expansão na visão sobre a vida espiritual e foi por isso que eu apliquei o prana no chacra frontal.
— Deus, é extraordinário!!! Mas...
— ...Sim?
— O senhor disse que falta o auxilio fraterno para a cura de mais um irmão enfermo e que não será o senhor quem o auxiliará; então, quem será???
— Você!
— Como?Eu?Mas eu não poderia!!!
— Por quê?
— Por que não sei fazer, posso fazer errado!
— Você já amou?
— Já! Já amei e ainda amo muito!
— Pois o teu amor irá lhe guiar, tendo em vista que uma parte do conhecimento de como proceder encontra-se dentro de ti, é só você se permitir o despertar.
— O amor vai me guiar, mas como?
— A pessoa que já se foi do plano físico e que você mais amou no mundo foi o seu pai, não é verdade?
— É sim senhor!
— Quando você era criança o seu pai teve um princípio de enfarte e décadas depois veio a desencarnar por um problema circulatório, não é verdade?
— É sim, meu Deus o senhor sabe!
— Sim e também sei que foi por isso que você escolheu, quando perguntado, o setor de pacientes com problemas circulatórios para praticar a caridade esta noite, não é verdade?
— É sim senhor!
— Diga-me: qual foi uma das lições mais importantes que você aprendeu com o seu pai?
— A dar sempre o meu melhor na realização das tarefas.
— Então, você entende como o amor lhe guiará na tarefa que lhe cabe?
Ao invés de responder deixei que minhas lágrimas falassem por mim. O juremeiro foi extremamente respeitoso e aguardou que eu serenasse as emoções. Instantes depois foi que ele disse a mim:
— Você sabe para onde devemos nos dirigir, correto?
Assenti com a cabeça que sim e caminhei com passos resolutos para o quarto de número vinte e três. Fiquei de pé ao lado direito do paciente e perguntei ao juremeiro:
— E agora, como devo proceder?
— Feche os olhos e faça uma prece a Tupã.
Rezei e, estranhamente, ao abrir os olhos eu entendia claramente o que fazer: como aprendera naquela noite que apesar de um paciente estar com problemas cardíacos o auxilio não deveria ser aplicado necessariamente ou unicamente no chacra cardíaco, então eu deveria ter uma fé muito grande para sentir onde estava o problema no paciente, tendo em vista que eu não possuo a mediunidade de ver com os olhos espirituais.
Cerrei novamente os meus olhos e passei as duas mãos, sem tocar, ao longo do corpo do paciente e comecei a sentir uma energia muito forte na região do plexo solar do irmão enfermo então, involuntariamente, veio a minha mente a imagem de saião e boldo e eu estiquei a mão direita em direção ao juremeiro que, sorrindo, abriu a sacola e despejou um pouco do prana na minha mão.
Após ter ministrado o prana no paciente nós saímos de dentro do hospital e ele me disse:
— Fale meu filho, é importante que eu lhe responda uma última pergunta antes de ir embora.
— Quando o senhor colocou o prana na minha mão eu senti o odor de saião e boldo, quando o senhor ministrou o prana nos outros dois pacientes eu senti o cheiro de outras ervas como pode ser isto?
— Eu já não lhe disse que colhi o prana de certos vegetais antes de vir lhe buscar no sono físico?
— Sim senhor, mas como estes pranas diferentes podem ficar todos misturados dentro desta sacola e serem tirados de forma específica, e não tudo misturado, quando ele vai ser ministrado a alguém em especifico? Esta sacola do senhor é mágica?
— Sim!
— Verdade?
— Sim, este embornal tem a magia do divino mistério de Jurema, a força divina contida no astral vegetal.
— Meu Deus!!!
— Filho, o amor lhe guiou pelos caminhos da fé e este juremeiro fica feliz em pedir a Tupã por todos vocês, os filhos de fé, que encham as vossas vidas do amor excelso Dele, pois só o amor perdoa e só o perdão pode fazer vocês se amarem ainda mais e clarearem os vossos caminhos na estrada que leva em direção ao Pai Criador de todas as coisas. Muitas vezes o que os olhos não vêem só o coração pode sentir, nunca se esqueça disso meu filho!!!




Mensagem de um amigo espiritual recebida por Pedro Rangel em julho do ano de 2008.